Dividas e Depressão


 

Dívida faz mal à saúde e pode causar até depressão; teste avalia sofrimento

 

THAIS FASCINA
DANIELLE BRANT
DE SÃO PAULO

 

 

 
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No dia em que o microempresário notou um zumbido insistente no ouvido a caminho do banco para tentar negociar parte de uma dívida de R$ 40 mil, decidiu procurar um médico.

"Achei que fosse o motor do ônibus em que estava. Desde então, o barulho não sai da minha cabeça."

O empresário, que não quis ser identificado, ficou surpreso com o diagnóstico: estresse causado pelos débitos aparentemente sem solução.

  Sergio Ranalli/Folhapress  
Grupo de apoio a devedores em Londrina (PR)
Grupo de apoio a devedores em Londrina (PR)

Casos assim são mais comuns do que se imagina e tendem a aumentar em cenário de preocupação com inflação e desemprego.

No ambulatório do Hospital das Clínicas, em São Paulo, a psicóloga Tatiana Filomensky, coordenadora do grupo de compradores compulsivos, afirma que, hoje, três novas pessoas procuram o consultório por semana com queixas de ansiedade, angústia e depressão relacionadas a problemas financeiros.

Nos últimos cinco anos, afirma, o número de atendimentos mais que dobrou.

"Quase todos os meus pacientes estão com dívidas que não conseguem pagar, e a consequência é o impacto na vida pessoal."

SEPARAÇÃO

Entre os efeitos comuns, estão brigas em casa, separações, descontrole emocional e problemas no trabalho.

"Com o estímulo ao consumo e a oferta de crédito dos últimos anos, o cenário se tornou propício ao endividamento, sem que houvesse uma educação financeira da população", diz Hermano Tavares, professor do Departamento de Psiquiatria da USP.

O consultor financeiro Mauro Calil diz que os mecanismos de cobrança também estão mais pesados: ligações no trabalho e em casa diariamente, e-mails e mensagens no celular, além do antigo hábito dos cobradores na porta. "E parcelas de dívidas que até poderiam ser pequenas ficaram mais pesadas pela inflação e pelo desemprego."

Para Hermano, da USP, as pessoas que desenvolvem problemas de saúde estão "em uma situação-limite".

DESINTOXICAÇÃO

O consultório médico não é o único caminho para consumidores superendividados em busca de ajuda.

Há grupos de ajuda no estilo do A.A. (Alcoólicos Anônimios), como o D.A. (Devedores Anônimos), nas cidades de São Paulo, do Rio, de Londrina, no Paraná, de Fortaleza, no Ceará, e de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

TESTE DE SOFRIMENTO

Cerca de 54 milhões de pessoas começaram 2015 inadimplentes, o que representa aproximadamente 40% da população adulta, segundo a Serasa Experian, empresa de informações financeiras.

Faça o teste que avalia o sofrimento causado à saúde pelasa dívidas. As perguntas foram desenvolvidas pela Serasa em parceria com o Ambulatório de Transtornos do Impulso, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

O teste foi criado a partir de estudo da Organização Mundial da Saúde adaptado ao Brasil.

4 efeitos perigosos das dívidas na saúde e na vida

1. Estresse e problemas de saúde

Funciona assim: seu telefone toca e trata-se de um credor questionando-o sobre o pagamento de uma dívida. Oh, de repente você se lembra que está endividado. Essa lembrança gera ansiedade, logo interpretada pelo cérebro como uma ameaça e aciona as glândulas suprarrenais, que por sua vez produz cortisol e adrenalina, hormônios associados ao estresse.

Esses hormônios despejados na corrente sanguínea desencadeiam diversas alterações importantes no organismo, processo que, se repetido com frequência, passa a significar graves problemas de saúde, como úlceras (27% mais comuns nos endividados), rugas, insônia (afeta 1 em cada 4 brasileiros endividados) e elevação da pressão arterial.

Viu só? A lembrança constante da dívida pode tornar sua vida muito mais difícil e ainda ocasionar problemas de saúde bem complicados. Vamos atacar esse problema? Comece lendo um texto em que mostro porque endividamento não rima com crescimento (clique para ler).

2. Depressão

Parece ser consenso entre profissionais da área de saúde que o estresse (item anterior) pode precipitar a depressão em pessoas com predisposição (provavelmente genética). E assusta saber que uma em cada cinco pessoas passou, passa ou passará por um quadro de depressão em algum momento da vida.

Não é difícil compreender o efeito que as dívidas podem ter no indivíduo depressivo. A angústia das cobranças, a ansiedade gerada a partir do estresse de saber-se endividado e a realidade financeira desarranjada desanimam, afetam o humor, tiram a motivação, geram medo e insegurança e aumentam o pessimismo.

Tais mudanças são um “convite” para a depressão, que pode se manifestar inicialmente como uma simples apatia e logo se converter em um quadro agudo e, aparentemente, sem origem definida. Pode ter começado com as dívidas, é preciso aceitar isso e estabelecer melhor as prioridades de vida – clique aqui para entender melhor tudo isso.

3. Problemas de relacionamento

Aqui entra em cena a realidade sobre finanças pessoais no Brasil: o tema é um tabu nas famílias. Logo, falar sobre dinheiro em casa costuma acontecer tarde, quando os problemas financeiros são devastadores e o quadro de problemas associado a eles já tomou proporções fatídicas.

Qualquer conversa se transforma em uma oportunidade para culpar o outro pela situação, como se “meter o dedo na cara” fosse resolver alguma coisa. Pode aliviar a tensão individual (é isso que costumamos pensar), mas só agrava o já fragilizado relacionamento e a cumplicidade dos membros da família.

Estar endividado e manter as aparências cria uma frágil sensação de tranquilidade, muitas vezes quebrada de forma brusca pelo choque de realidade. O que parecia um lar feliz logo se transformar em um relacionamento sem confiança. Sim, a falta diálogo constante sobre dinheiro é capaz de fazer isso. Clique aqui para aprender a mudar esse quadro.

4. Queda de produtividade e concentração no trabalho

No início de 2012, foi divulgada, pela SHRM (Society for Human Resource Management), uma pesquisa chamada “Financial Education Initiatives in the Workplace”, indicando que 83% dos profissionais de RH acreditam que os desafios financeiros dos empregados têm impacto na performance da empresa.

Funcionários que enfrentam desafios financeiros utilizam tempo de trabalho para cuidar de questões financeiras pessoais. Segundo pesquisa feita nos EUA pela PricewaterhouseCoopers em 2012 (“Employee Financial Wellness Survey”), 97% dos funcionários utilizam horas de trabalho para cuidar de questões financeiras pessoais, sendo que 22% despendem pelo menos cinco horas por semana.

O André Massaro, com quem escrevi o livro “Dinheiro é um Santo Remédio” (clique e conheça), publicou um excelente eBook gratuito sobre o impacto das questões financeiras no ambiente de trabalho. O “Guia de Educação Financeira no Ambiente de Trabalho (GEFAT)” (clique para download) é um excelente ponto de partida para entender essa realidade.

Conclusão

Ser irresponsável com o próprio dinheiro tem um preço, e ele costuma estar associado a graves problemas de saúde, depressão, divórcios e queda de produtividade no trabalho. Isso sem contar no alto custo financeiro, já que vivemos no país das mais elevadas taxas de juros ao consumidor.

Desculpe se o texto parece muito forte, talvez apelativo e negativo, mas o alerta precisa ser dado dessa forma. Negligenciar nossa saúde física e emocional em detrimento da inclusão social pelo consumo e de uma vida de aparências e status traz consequências duras, não dá dizer isso de outra forma.

Se me permite uma sugestão, pare de agir como vítima da situação e do sistema (leia mais sobre isso aqui). Achar que “é assim mesmo” ou que “não dá pra ser de outro jeito nesse país” é escolher a derrota da união familiar e da disciplina necessária para alcançar seus sonhos. E se podemos escolher, que a escolha seja melhor e mais consciente.

Aqueles que já sofreram na pele as consequências do endividamento severo são testemunhas do resumo apresentado neste texto. É esse o seu caso? Ajude mais leitores e compartilhe seu aprendizado no espaço de comentários abaixo. Obrigado e até a próxima.

Foto “Sitting on floor”, Shutterstock.

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